terça-feira, 08 de outubro de 2019
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Futebol Profissional

Onde tudo começou

Primeiro título profissional do Nova Iguaçu completa 25 anos

O Nova Iguaçu Futebol Clube hoje é uma realidade, conhecido no país todo como uma potência na formação de jogadores e integrante da Primeira Divisão do Campeonato Carioca. Mas a história, iniciada no dia 1º de abril de 1990, foi construída aos poucos. E um dos grandes momentos está completando nesta terça-feira 25 anos: a conquista da Segunda Divisão do Carioca, o primeiro título profissional do clube.

Naquela época, o Nova Iguaçu não tinha nem de perto a estrutura que tem nos dias atuais. Mas montou um elenco muito determinado, mesclando jogadores rodados e com passagens por grandes clubes, atletas que vinham buscando um lugar ao sol e também garotos já formados na base do clube. O título de 1994 é até hoje muito comentado pelos dirigentes.

Em sentido horário: Geraldo, Cao (auxiliar), Paulo César (técnico), Marcelinho, Rodrigues, Gimenes, Nelson, Gilcinei, Wisley Souto (preparador de goleiros), Lutenis, Kikinho, Fred, Ronaldo, Jorginho, Carlos Vitor e Marcos Antônio (massagista)

- Talvez tenha sido o time de maior qualidade que eu vi no Nova Iguaçu nesses 29 anos. Tinha o Ronaldo e o Carlos Vitor, com uma qualidade fantástica… O Kikinho no meio, um dos maiores meias que eu já vi jogar, chegou a disputar posição com o Zico na base do Flamengo… Tinha o Marcelinho, centroavante rompedor, artilheiro. Jorginho, lateral-direito, que naquela época já fazia o ala que tanto se fala hoje. Lutenis foi o maior volante que eu já vi jogar, era um lorde jogando… Era um time muito coeso, muito vibrante e competitivo – recorda Vitor Lima, vice-presidente de futebol.

A campanha vitoriosa começou com uma derrota pesada para o América de Três Rios por 4 a 0. Mas aos poucos o Nova Iguaçu foi construindo uma sólida trajetória e conseguiu o acesso numa partida duríssima, contra o Rubro de Araruama, diante de um Louzadão lotado. Sim, o Orgulho da Baixada na época atuava no estádio do Mesquita, e o apoio da comunidade local foi fundamental – Mesquita ainda fazia parte do município de Nova Iguaçu.

- O jogo contra o Rubro talvez tenha sido o jogo mais difícil. Era uma equipe forte, bem determinada e se não me engano jogava pelo empate. Foi uma guerra que no fim tivemos sucesso, com um gol no final do jogo num pênalti em cima do Marcelinho e cobrado pelo Ronaldo (hoje técnico do sub-11 e do sub-12 do Nova Iguaçu). Foi uma explosão de felicidade e alegria. Ali se confirmava nossa união, foi um momento inesquecível para todos nós – lembra o técnico da equipe campeã, Paulo César Lima.

Ronaldo, hoje técnico da base, fez o gol do acesso contra o Rubro num Louzadão lotado (FOTO: Arquivo pessoal)

Depois de vencer o Rubro por 1 a 0 no jogo do acesso, o Nova Iguaçu foi decidir o título da Segunda Divisão do Campeonato Carioca em jogo único contra o Goytacaz, no Estádio Eduardo Guinle, em Nova Friburgo. A partida foi duríssima, e a Laranja da Baixada contou com uma atuação inspirada do goleiro Gimenes, um dos destaques daquela campanha. A partida terminou em 0 a 0, e o Nova Iguaçu venceu nos pênaltis por 3 a 2.

- Aquele jogo foi muito marcante. Estávamos muito confiantes, tínhamos acertado no momento certo da competição. Foi um jogo truncado, eu estava num dia inspirado mesmo. Fiz duas defesas muito difíceis durante o jogo que levaram para os pênaltis. Na hora da moedinha, aconteceu algo muito inusitado: falei que independente do gol que seria escolhido, que eu iria pegar e que seríamos campeões. Não sei se isso abalou o adversário ou não… Fomos para o gol do lado direito, o primeiro pênalti foi do He-Man, ele tentou tirar demais de mim, eu fui no canto certo e ele chutou pra fora. Teve mais dois pênaltis que eles perderam, querendo tirar de mais de mim e jogando para fora, eu fui em todas – conta Gimenes.

Atletas campeões em 1994, Jorginho (massagista), Ronaldo (técnico do sub-10, sub-11 e sub-12) e Carlos Vitor (técnico do sub-15) continuam no Nova Iguaçu e são peças-chave no trabalho de formação do clube (FOTO: Bernardo Gleizer/Nova Iguaçu FC)

As dificuldades naquela época eram grandes. O Nova Iguaçu, apenas no quarto ano de vida, ainda não tinha Centro de Treinamento ou estádio. Fazia seus treinamentos no campo do Cabuçu, do Aliados, do 20º BPM, em Mesquita… A concentração era na Casa dos Padres, um colégio religioso na cidade. O material era transportado numa kombi, e o ônibus que levava os jogadores para as partidas era carinhosamente apelidado de “Sacolão” e “Coração Cansado”.

- Não tínhamos os recursos que o Nova Iguaçu tem hoje. Lavávamos os uniformes ali perto do shopping, guardávamos nosso material numa salinha, tinha uma kombizinha velha que transportava o material… Treinávamos em vários campos diferentes, cada dia em um… Mas era gostoso trabalhar com esse grupo. Todo mundo jogava bola, eram dedicados… Foi o primeiro título do clube, e isso teve uma importância muito grande, depois vieram os outros com a grandeza que o Nova Iguaçu foi construindo – disse PC.

- O que mais dificultava eram os locais de treinamento, cada vez num local diferente, tinha o deslocamento… Tínhamos tudo, mas era limitado. Nada nos fazia menor em relação aos outros. O Nova Iguaçu sempre foi mais organizado do que times já quase centenários. Todo mundo ali estava querendo seu lugar o sol. Sabíamos que tínhamos mais do que os outros clubes na época. Aquele título foi fundamental para o Nova Iguaçu chegar onde hoje ele está – ressalta o ex-goleiro Gimenes, completando:

- Eram todos muito responsáveis, era um grupo com uma força de vontade muito grande, com muito profissionalismo. Tinha muita personalidade. Muitos de nós tínhamos uma resiliência grande por conta das dificuldades. A união foi o que juntou todas essas características e nos fez um grupo muito forte.

Ônibus do Nova Iguaçu na época era apelidado de "Coração Cansado" e "Sacolão" (FOTO: Arquivo pessoal)

Três jogadores daquela campanha de 1994 hoje fazem parte do quadro de funcionários do Nova Iguaçu e são peças fundamentais no trabalho de formação de atletas do clube: o volante Ronaldo, autor do gol do acesso e hoje técnico do sub-10, sub-11 e sub-12 do clube; o também ex-volante Carlos Vitor, técnico do sub-15; e o lateral-direito Jorginho, hoje massagista no NIFC.

- O maior legado daquele título foi a visibilidade. O Nova Iguaçu montou o time profissional quando já tinha iniciado o trabalho de base, que sempre foi a nossa filosofia. Ainda estávamos iniciando, e aquele título foi o carro-chefe, foi a forma de o atleta da Baixada Fluminense olhar o Nova Iguaçu de uma forma diferente e buscar uma oportunidade no clube. Teve uma importância muito grande, só fomos ganhar de novo a Segunda Divisão em 2005 e isso mostra a dificuldade que é ganhar esse campeonato. O Nova Iguaçu começou a crescer a partir daquele momento – afirmou Vitor Lima.

Você pode estar se perguntando: se o Nova Iguaçu foi o campeão da Segunda Divisão, porque não disputou a Primeira Divisão em 1995? Naquela época, havia o chamado “Módulo Intermediário”, e por isso a Laranja da Baixada não participou da elite. O Orgulho da Baixada só disputaria o Cariocão em 2006. Segundo os dirigentes do clube, um recado divino.

- Ganhamos, mas não levamos. Sempre falo que Deus está no caminho do Nova Iguaçu. As pessoas chegam lá, olham e acham que é só fazer um estalo. Foi tijolo por tijolo, e Deus sempre iluminou nossos caminhos. Sou muito agradecido a essas coisas. Foi Deus que nos deu o título de 1994, mas, também, nos tirou o acesso, porque se tivéssemos entrado em 1995 na Primeira, o Nova Iguaçu poderia nem existir mais. Para disputar uma Primeira tem que ter estrutura e o Nova Iguaçu naquela época não tinha – disse o presidente Janio Moraes.

- Tínhamos a expectativa na época de jogar a Primeira Divisão, mas mais na base da emoção do que na razão. Não estávamos preparados. Deus olha para o Nova Iguaçu em todos os aspectos, sabia que não tínhamos a estrutura física nem financeira para disputar a Primeira Divisão naquele momento. Desde aquela época o Nova Iguaçu já pensava em montar a base. Fizemos o infantil e o juvenil primeiro, em 1991, depois o profissional em 1993… Tudo foi feito com calma e paciência – completou Vitor.

Bernardo Gleizer