quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019
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Futebol Profissional

Missão cumprida

Técnico da casa, Carlos Vitor ajuda Nova Iguaçu a evitar rebaixamento

Acostumado a revelar talentos em suas já famosas categorias de base, o Nova Iguaçu agora também faz treinadores formados em casa. Contratado com a missão de salvar o clube do rebaixamento no Campeonato Carioca, Carlos Vitor concluiu com louvor a tarefa: comandou o Orgulho da Baixada em dois jogos, conquistou duas vitórias (sobre Goytacaz e America, ambas por 1 a 0) e evitou a queda com uma rodada de antecedência.

Carlos Vitor celebra a vitória sobre o America que salvou o Nova Iguaçu da queda (FOTO: Bernardo Gleizer/Nova Iguaçu FC)

Carlos Vitor – ou Cal, para os mais conhecidos – tem uma história intimamente ligada ao Nova Iguaçu. Foi jogador do clube entre 1992 (dois anos apenas após a fundação) e 1999 e, depois, integrou o quadro de treinadores da Laranja da Baixada, passando pelo sub-13, sub-15, sub-17 e sub-20, além de atuar também como auxiliar-técnico e técnico da equipe profissional em situações pontuais.

Títulos também foram vários. Como atleta, o principal deles foi a Série B do Campeonato Carioca de 1994, quando o clube ainda engatinhava e sequer tinha o moderno Centro de Treinamento que tem hoje. Fora de campo, teve a conquista do Torneio OPG de Juniores em 2010 e, no ano passado, a Taça Rio Sub-15. Mas, segundo ele, evitar o rebaixamento para a Segunda Divisão esse ano foi o que mais representou em sua carreira.

- Pelo momento que o clube vivia, realmente se for colocar na ponta do lápis… Eram dois jogos importantíssimos. Sabemos que em relação a valores o clube ficaria ferido, porque haveria uma queda com um eventual rebaixamento. Costumo dizer que não é uma conquista minha, é uma conquista global, de todo um clube. A gente principalmente que tem uma identidade com o clube há muitos anos sabe como foi importante – disse.

Cal teve o auxílio de Ronaldinho, com quem atuou junto no próprio Nova Iguaçu (FOTO: Bernardo Gleizer/Nova Iguaçu FC)

Carlos Vitor não teve muito tempo para trabalhar. Após uma campanha ruim na etapa preliminar, terminando apenas na quinta colocação e ficando fora da fase principal, o Nova Iguaçu teve de disputar o Grupo X e seguiu tropeçando, sofrendo duas derrotas e conquistando apenas uma vitória. O técnico Marcelo Salles foi desligado, e Carlos Vitor chamado. Sua principal virtude, segundo ele, foi passar tranquilidade.

- Conseguimos atingir rápido a parte psicológica. Transformar a equipe em tão pouco tempo é difícil. A equipe já tinha alguma coisa, mas isso talvez estivesse escondido. Eles se sentiram mais confiantes, mais à vontade, e puderam mostrar isso. Conseguimos com esse pouco tempo trazer tranquilidade, que é uma das coisas que com o tempo a aprendemos nesse meio do futebol – afirmou o treinador iguaçuano.

Garantido na Primeira Divisão do Campeonato Carioca de 2020, quando terá novamente que passar pela fase preliminar – salvo alguma mudança no regulamento -, o Nova Iguaçu se despede da temporada profissional nesta sexta-feira, diante do Macaé, que também já se garantiu na elite, às 16h30, no Estádio Antônio Ferreira de Medeiros, em Cardoso Moreira. Leia outros trechos do bate-papo com Carlos Vitor:

ÊXITO NA MISSÃO

“Primeiro agradecer a Deus e também ao presidente, pelo contato comigo e com o auxiliar Ronaldinho. Temos um relacionamento bom, jogamos juntos. O que aconteceu foi a aceitação da comissão técnica, algo fundamental. Conseguimos com esse pouco tempo trazer tranquilidade, que é uma das coisas que com o tempo a gente aprende no futebol. Independente da situação não estar boa, é preciso procurar se equilibrar. Com o equilíbrio você enxerga as coisas de uma maneira melhor. A comissão entendeu, observamos algumas coisas, fomos deixando eles bem à vontade. É claro que no início pairou uma dúvida, um profissional do clube, da base, naquela situação… Mas Deus escreve certo por linhas tortas. Fiquei superfeliz, porque junto com a comissão fizemos com que os atletas entendessem a proposta que a gente tinha. E os atletas também sabiam que tinham uma dívida com o clube, que cumpre com tudo que é acordado. É claro que ninguém queria estar naquela situação. Com o tempo fomos vendo que foi fundamental esse momento de passar uma tranquilidade a eles, nos equilibramos, nós da comissão nos respeitamos, cada um na sua função, e isso foi fundamental para atingirmos o nosso objetivo.”

Forma duas vitórias em dois jogos, contra Goytacaz e America (FOTO: Bernardo Gleizer/Nova Iguaçu FC)

ASPECTO MENTAL

“Conseguimos atingir rápido a parte psicológica. Transformar a equipe em tão pouco tempo é difícil. A equipe já tinha alguma coisa, mas isso talvez estivesse escondido. Eles se sentiram mais confiantes, mais à vontade, e puderam mostrar isso. Nós, treinadores, podemos dar qualquer tipo de trabalho, mas quem vai responder realmente são eles. A resposta foi muito boa. Tivemos pouco tempo para trabalhar, mas em pouco tempo pudemos mudar algumas coisas, alguns conceitos, e os atletas compraram a ideia. Você pode ser o melhor treinador do mundo, mas se os atletas não comprarem a ideia, a coisa não anda… Já estive do outro lado e sei como é. Graças a Deus as coisas aconteceram da melhor maneira e todos tiraram proveito disso.”

CARINHO NAS REDES SOCIAIS

“Esse carinho faz a gente ficar muito feliz. A gente passa a perceber que as pessoas que botaram as felicitações são aquelas pessoas que estão sempre acompanhando, desejando sorte, estão sendo honestas. Sempre encontramos amigos que dão força, e esse foi um momento bom para a gente. Essas felicitações nos ajudaram muito e acredito que foram verdadeiras.”

OBJETIVO DE TREINAR O PROFISSIONAL

“Poder iniciar um trabalho, fazer as escolhas da comissão, dos atletas, junto à estrutura que já existe, não tem nada melhor. É claro que a minha perspectiva é essa. Eu me considero uma pessoa muito dedicada, faço meus estudos em casa, sempre procuro evoluir, vendo jogos, vídeos, conversando com as pessoas… Colhi muita experiência com os profissionais com quem trabalhei, como atleta, como auxiliar, como treinador. Cada um tem que aproveitar as oportunidades que têm. Tenho amigos na Europa, que fizeram estágio na comissão do José Mourinho… Futebol não tem o que se inventar. Às vezes eu brinco que o Charles Müller vai se revirar no túmulo porque está acontecendo uma reinvenção do futebol, e no futebol não se inventa. É claro que conhecimento sempre é bom para se enriquecer, mas o alicerce, uma estrutura que foi criada no futebol, não podemos abandonar.”

Bernardo Gleizer